Dívida Ativa por CNPJ: Como Consultar e Avaliar o Risco de um Fornecedor
Como consultar a dívida ativa de um CNPJ, o que a inscrição na PGFN significa de fato e por que o risco muda 18 vezes conforme o setor do fornecedor: 22,1% das indústrias de máquinas têm inscrição, contra 1,2% das organizações associativas.

Dívida ativa é o estoque de créditos que a União não conseguiu receber na fase administrativa e inscreveu na Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) para cobrar, inclusive em juízo. No Brasil, 6.805.731 empresas ativas têm ao menos uma inscrição, somando R$ 3,3 trilhões. Mas a incidência não é uniforme: 22,1% das 55.185 empresas ativas de fabricação de máquinas e equipamentos estão inscritas, contra 1,2% das organizações associativas e dos serviços de assistência social. Quem compra de indústria pesada convive com 18 vezes mais fornecedores inscritos do que quem compra de serviços associativos, e isso é estrutural, não acaso. Os números vêm do estudo de dívida ativa por setor da Data Stone, com base da PGFN de 01/06/2026 e cadastro de empresas de 13/09/2026. Abaixo, o que a inscrição significa, como consultar um fornecedor, a tabela por setor e como cruzar isso numa carteira inteira.
O que significa estar inscrito em dívida ativa
A inscrição é uma etapa, não um veredito. O caminho é o seguinte: a Receita Federal lança um tributo (ou a Justiça do Trabalho, o INSS e outros órgãos geram um crédito), a empresa não paga nem contesta com sucesso na esfera administrativa, e o débito é enviado à PGFN, que o inscreve em dívida ativa da União. A partir daí a Procuradoria pode protestar o título, incluir o CNPJ na lista pública de devedores e ajuizar execução fiscal.
Três consequências práticas para quem avalia fornecedor:
- Inscrição não é inadimplência em curso. O débito inscrito pode estar parcelado, garantido por depósito ou seguro, ou em discussão judicial com a exigibilidade suspensa. Nesses casos a empresa continua contratando, emitindo nota e participando de licitação com certidão positiva com efeitos de negativa.
- “Valor inscrito” não é valor cobrado. É o estoque acumulado, com multa e juros, que pode ter décadas e incluir débitos já prescritos ou em revisão. Um valor alto num setor diz mais sobre a concentração de grandes contribuintes do que sobre o risco médio de cada empresa.
- A inscrição é por CNPJ de 14 dígitos. Matriz e filial podem aparecer separadamente na PGFN. Num grupo com dez estabelecimentos, olhe o CNPJ do estabelecimento que vai faturar para você, não só o da matriz.
Quando a dívida importa de verdade: ela aumenta a chance de bloqueio judicial de recebíveis, de penhora de estoque e de interrupção súbita da operação. Para um fornecedor crítico, com contrato longo e substituição cara, isso é o risco que a homologação existe para medir.
O que a certidão mostra e o que ela não mostra
A ferramenta clássica de homologação é a certidão conjunta de débitos federais, emitida pela Receita e pela PGFN. Ela existe em três estados: negativa (CND), positiva (há débito exigível) e positiva com efeitos de negativa (CPEN, há débito, mas parcelado, garantido ou suspenso).
O que ela cobre: tributos federais, contribuições previdenciárias e a dívida ativa da União. O que ela não cobre: débitos estaduais (ICMS), municipais (ISS, IPTU), FGTS (certidão própria da Caixa) e débitos trabalhistas (CNDT, do TST). Um fornecedor com CND federal impecável pode estar com a inscrição estadual suspensa por ICMS.
Duas limitações pesam mais do que parecem:
- É uma foto de um dia. A certidão vale por 180 dias, mas o fato que ela atesta é verdadeiro na data de emissão. Uma inscrição feita na semana seguinte não aparece até a próxima emissão.
- A CPEN esconde o tamanho do problema. Ela diz que há débito suspenso, não quanto, nem desde quando, nem se o parcelamento está em dia. Para o comprador, R$ 20 mil parcelados e R$ 20 milhões em discussão judicial produzem a mesma certidão.
Por isso a certidão é o mínimo contratual, não a análise. A análise cruza a certidão com a inscrição individualizada na PGFN, a situação cadastral e o histórico do CNPJ.
Como consultar a dívida ativa de um fornecedor
Para um CNPJ isolado, três caminhos públicos e gratuitos:
- Lista de devedores da PGFN, no portal Regularize: mostra quem consta como devedor principal ou corresponsável, com o valor consolidado por inscrição. A lista pública só inclui débitos não garantidos e não suspensos, então quem está parcelado some dela.
- Certidão conjunta Receita/PGFN: emissão automática pelo CNPJ, com o resultado nos três estados descritos acima.
- Ficha da empresa no Consulta Data Stone: traz a inscrição em dívida ativa da União individualizada, ao lado da situação cadastral, do quadro societário, do porte e da data de abertura. Para a homologação, ter os quatro dados na mesma tela é o que permite ler a dívida em contexto, como mostra o guia de consulta de empresas por CNPJ.
Para uma carteira, o caminho muda. Ninguém consulta 400 fornecedores um a um a cada trimestre. A consulta de CNPJ em massa recebe até 50 CNPJs por vez, grátis, e devolve razão social, cidade e situação cadastral de cada um, com link para a ficha completa, onde está a inscrição em dívida ativa. Serve para a triagem; a carteira inteira, com reconsulta periódica, é trabalho de plataforma, descrito mais abaixo.
Dívida ativa por setor: onde o risco se concentra
O estudo cobre as 76 divisões de CNAE com ao menos 10.000 empresas ativas e mede, em cada uma, a proporção de empresas com inscrição. A tabela abaixo traz as dez primeiras, uma seleção dos setores de serviço e comércio que aparecem com frequência em carteiras de fornecedor, e as seis últimas.
| Setor (divisão CNAE) | Empresas ativas | Com dívida | % com dívida | Valor inscrito |
|---|---|---|---|---|
| Fabricação de máquinas e equipamentos (28) | 55.185 | 12.184 | 22,1% | R$ 46,4 bilhões |
| Vigilância, segurança e investigação (80) | 85.303 | 15.878 | 18,6% | R$ 29,9 bilhões |
| Obras de infraestrutura (42) | 124.501 | 23.093 | 18,5% | R$ 67,3 bilhões |
| Metalurgia (24) | 17.970 | 3.191 | 17,8% | R$ 59,4 bilhões |
| Veículos automotores, reboques e carrocerias (29) | 37.562 | 6.297 | 16,8% | R$ 47,8 bilhões |
| Máquinas, aparelhos e materiais elétricos (27) | 23.328 | 3.876 | 16,6% | R$ 24,8 bilhões |
| Fabricação de móveis (31) | 340.788 | 52.666 | 15,5% | R$ 17,3 bilhões |
| Borracha e material plástico (22) | 95.370 | 14.041 | 14,7% | R$ 60,7 bilhões |
| Informática, eletrônicos e ópticos (26) | 17.739 | 2.541 | 14,3% | R$ 18,4 bilhões |
| Construção de edifícios (41) | 719.412 | 102.964 | 14,3% | R$ 83,8 bilhões |
| Serviços especializados para construção (43) | 3.513.435 | 489.193 | 13,9% | R$ 50,7 bilhões |
| Comércio por atacado (46) | 1.857.742 | 221.979 | 11,9% | R$ 321,6 bilhões |
| Atividades jurídicas, contabilidade e auditoria (69) | 507.006 | 50.191 | 9,9% | R$ 10,5 bilhões |
| Transporte terrestre (49) | 3.345.270 | 313.511 | 9,4% | R$ 173,8 bilhões |
| Comércio varejista (47) | 17.592.545 | 1.629.570 | 9,3% | R$ 249,0 bilhões |
| Serviços de tecnologia da informação (62) | 523.226 | 42.610 | 8,1% | R$ 26,4 bilhões |
| Atenção à saúde humana (86) | 1.314.562 | 102.581 | 7,8% | R$ 76,8 bilhões |
| Eletricidade, gás e outras utilidades (35) | 35.451 | 968 | 2,7% | R$ 24,1 bilhões |
| Agricultura, pecuária e serviços relacionados (01) | 1.255.904 | 28.617 | 2,3% | R$ 34,5 bilhões |
| Serviços financeiros (64) | 613.176 | 13.781 | 2,2% | R$ 221,3 bilhões |
| Jogos de azar e apostas (92) | 18.945 | 305 | 1,6% | R$ 304 milhões |
| Assistência social sem alojamento (88) | 1.833.221 | 22.176 | 1,2% | R$ 11,9 bilhões |
| Organizações associativas (94) | 4.563.252 | 54.251 | 1,2% | R$ 18,3 bilhões |
Fonte: Data Stone, sobre dados da PGFN (01/06/2026) e da Receita Federal (13/09/2026). Tabela completa, com as 76 divisões, no estudo.
O que a tabela diz
O topo é indústria pesada e construção. Nove das dez divisões com maior incidência são fabricação ou obra: máquinas, metalurgia, veículos, material elétrico, móveis, plástico, eletrônicos, edifícios e infraestrutura. A exceção é vigilância e segurança, um setor de serviço intensivo em folha de pagamento.
A base é serviço, agro e financeiro. Organizações associativas, assistência social, apostas, serviços financeiros, agricultura e utilidades ficam todos abaixo de 3%. Entre os dois extremos há 18 vezes de diferença.
Isso é estrutural. Indústria e construção imobilizam capital em máquina e obra, carregam folha grande (e a contribuição previdenciária sobre a folha é um dos tributos federais que mais geram inscrição), operam com ciclo de caixa longo e dependem de crédito. Quando a receita atrasa, o tributo é a conta que fica para depois. Serviço associativo, por sua vez, tem imunidade ou isenção em boa parte dos tributos federais e folha pequena. Não é que a indústria seja mal gerida: é que o modelo de negócio produz mais passivo tributário por empresa.
Para quem compra, a leitura é direta: um fornecedor de usinagem com inscrição em dívida ativa está dentro da norma do seu setor (um em cada quatro ou cinco está), enquanto uma consultoria de TI com inscrição está fora da norma dela (um em cada doze). A mesma inscrição merece pesos diferentes conforme a divisão de CNAE do fornecedor, e a tabela acima é o que permite calibrar esse peso. A lista de todas as divisões, com o número de empresas em cada uma, fica em atividades econômicas (CNAE).
Como não ler errado estes números
Cinco cuidados, porque cada um deles já produziu manchete equivocada:
- Valor não é proporção. O comércio por atacado tem R$ 321,6 bilhões inscritos, o maior valor da tabela, mas 11,9% de incidência, posição 22 entre 76. O valor concentra-se em poucas empresas grandes do setor; a proporção descreve o setor. Fabricação de máquinas tem R$ 46,4 bilhões, sete vezes menos, e é o setor com maior incidência. Na frase, nunca troque um pelo outro.
- São duas datas-base diferentes. O estoque de dívida é da PGFN em 01/06/2026; o número de empresas ativas é do cadastro da Receita em 13/09/2026. A proporção entre os dois é uma aproximação, e quem citar precisa carregar as duas datas, que estão em cada linha do arquivo.
- O recorte é a divisão de CNAE, os dois primeiros dígitos, e não a subclasse de sete. Na divisão, a migração de empresas entre códigos vizinhos se cancela; na subclasse, não.
- Só divisões com 10.000 ou mais empresas ativas entram no ranking. Com poucas empresas, uma única devedora move a proporção vários pontos.
- Só empresas ativas no denominador, e nenhuma empresa é identificada no estudo nem no arquivo. O dado individual mora na ficha de cada CNPJ, e é lá que a homologação vai buscá-lo.
Há um sexto cuidado que é do leitor, não do estudo: ativo é situação cadastral, não saúde financeira. Das 73,2 milhões de inscrições no cadastro, só 39,1% estão ativas, e o Raio-X das empresas do Brasil mostra quanto disso é baixado, inapto ou suspenso. Um fornecedor inapto com dívida ativa é um problema diferente de um fornecedor ativo com dívida parcelada, e a situação cadastral precisa ser lida antes da inscrição.
Como cruzar em escala numa base de fornecedores
Quem lê este artigo raramente precisa checar um CNPJ. Precisa checar a carteira: 200, 800, 3.000 fornecedores ativos, com entrada de novos toda semana. Nessa escala, três rotinas resolvem a maior parte do risco:
- Homologação na entrada. Antes do primeiro pedido, a ficha completa: situação cadastral, data de abertura, porte, sócios, inscrição em dívida ativa e certidões. Um fornecedor aberto há quatro meses, com sócio que já teve outra empresa baixada e inscrição recente, não é necessariamente ruim, mas é um que merece prazo de pagamento diferente.
- Recorrência por criticidade. Fornecedor crítico (sem substituto, contrato longo, adiantamento) é reconsultado a cada trimestre; os demais, a cada renovação de contrato ou a cada seis meses. A certidão de 180 dias dita o ritmo mínimo, não o ideal.
- Alerta de mudança. O que importa não é o estado, é a transição: o fornecedor que não tinha inscrição e passou a ter, o que saiu de ativo para suspenso, o que trocou de sócio. Comparar a extração de hoje com a do trimestre anterior é o que revela isso, e exige que a base esteja limpa, sem duplicidade de CNPJ e com o estabelecimento certo, como descreve o guia de higienização de dados B2B.
Para essa rotina, o cruzamento da base da Receita com a dívida ativa da União e os demais registros públicos já vem pronto na plataforma da Data Stone, que libera 25 créditos grátis para testar com a sua própria carteira, sem cartão e exclusivo para empresas com CNPJ. O teste útil é simples: suba os 25 fornecedores que mais pesam no seu custo e veja quantos estão fora da norma do próprio setor.
Fonte e como citar
Os números deste artigo vêm do estudo “Dívida ativa da União por setor”, publicado pela Data Stone sobre dados públicos da PGFN e da Receita Federal. A tabela completa em CSV, com as 76 divisões e as duas datas-base em cada linha, pode ser baixada e reutilizada sob licença CC BY 4.0, inclusive para uso comercial, com atribuição. Os estudos leem a base viva e os valores mudam a cada carga; ao citar, inclua a data-base de cada número. O detalhamento das fontes e das cargas está na metodologia do Consulta.
Formato sugerido de citação: Dívida ativa da União por setor. Data Stone, datastone.com.br/consulta/estudos/divida-ativa-por-setor-2026. Base da PGFN de 01/06/2026 e cadastro da Receita Federal de 13/09/2026.
Perguntas frequentes
Como consultar se um CNPJ tem dívida ativa?
A consulta pública é feita na lista de devedores da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), pelo portal Regularize, ou pela emissão da certidão de débitos federais da Receita. A ficha gratuita de empresa do datastone.com.br/consulta reúne o mesmo dado junto da situação cadastral e do quadro societário, o que poupa três consultas separadas. Para uma carteira de fornecedores, a consulta em massa gratuita devolve a situação cadastral de até 50 CNPJs por vez, com link para a ficha de cada um; acima disso, a checagem recorrente é trabalho de plataforma.
Dívida ativa significa que a empresa está inadimplente?
Significa que a União tem ao menos um crédito contra ela inscrito na PGFN, sem que o débito tenha sido pago ou suspenso na fase administrativa. Não é sentença: o débito pode estar parcelado, garantido ou em discussão judicial, e a empresa pode seguir operando normalmente. O que a inscrição mede é um estoque de cobrança, e a leitura certa combina esse dado com a situação cadastral e o tempo de operação do CNPJ.
Qual setor tem mais empresas com dívida ativa?
Fabricação de máquinas e equipamentos, divisão 28 da CNAE: 22,1% das 55.185 empresas ativas têm inscrição em dívida ativa da União, com base da PGFN de 01/06/2026 e cadastro de 13/09/2026. Em seguida vêm vigilância e segurança (18,6%), obras de infraestrutura (18,5%) e metalurgia (17,8%). No outro extremo, organizações associativas e serviços de assistência social ficam em 1,2%.
A certidão negativa garante que o fornecedor não tem dívida?
Garante apenas que, na data de emissão, não havia débito federal exigível em nome daquele CNPJ. A certidão não cobre dívidas estaduais, municipais ou trabalhistas, e a versão positiva com efeitos de negativa é emitida mesmo com débito parcelado ou suspenso. Como vale por 180 dias e retrata um único dia, a homologação séria repete a consulta a cada ciclo de compra e acompanha mudanças entre uma certidão e outra.


